Palavra do presidente

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O Brasil ocupa, atualmente, o posto de sexto maior produtor de leite do mundo. A cada dia, as propriedades rurais brasileiras geram cerca de 90 milhões de litros de leite, que, direcionados às indústrias, dão origem a dezenas de produtos de alto valor nutricional, presentes em hábitos de consumo dos quatro cantos do globo. Mas apesar dessa evolução e da relevância dos números, o nosso país ainda está aquém de seu potencial de produção e consumo, se comparado com o posicionamento de outras nações latinoamericanas.

Conhecido por suas belezas naturais e pelo atual poder econômico, o Brasil não tem a mesma expressividade, em âmbito internacional, quando o assunto é sua produção leiteira, uma das principais riquezas da federação. Esse gargalo sinaliza os entraves vivenciados pelo setor, que está em busca de um discurso único para se fortalecer. Nesse cenário constante de negociação é preciso que todos os atores da cadeia produtiva, os órgãos governamentais e o mercado se engajem e encontrem uma prática comum para consolidar o mercado interno, tendo condições de assumir uma postura mais competitiva lá fora.

À frente do Silemg – Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado de Minas Gerais –, tenho trabalhado de forma plural para estabelecer o diálogo entre os protagonistas do setor, percebendo, no cardápio das discussões, o compromisso com a qualidade da produção, com a harmonização de tributos e as negociações com o trade.

Minas Gerais é responsável, hoje, pela maior bacia leiteira do país e tem este insumo como um dos principais incrementos de sua economia, grande geradora de emprego e renda, estando presente em todos os 853 municípios mineiros.

Por ocuparmos tamanha representatividade, procuro sempre, durante as viagens que realizamos por todo Estado, motivar as indústrias a participarem do desenvolvimento dos conceitos de gestão eficiente do negócio nas propriedades rurais, conscientizando os produtores sobre a importância de buscar resultados positivos e crescentes por meio da produção baseada na qualidade. Mas não acredite que este é um problema apenas dos produtores.

Muitas indústrias ainda seguem características extremamente artesanais e paternalistas. Por isso, há um esforço constante para conscientização de todos os níveis da cadeia produtiva sobre a necessidade de assumir uma gestão profissionalizada, para que possamos compartilhar conquistas e responsabilidades, organizando nossas ações e adquirindo ainda mais poder de enfrentamento às pressões do mercado.

Se durante muito tempo prevaleceu, exclusivamente, a lei da oferta e da procura, hoje o trade exerce seu poder sobre a indústria. Mais organizado, a partir da formação de grandes conglomerados, e com as vantagens da negociação em mãos, o trade impôs verbas acessórias, extracomerciais, para pagamento à indústria, desconsiderando as dificuldades enfrentadas pelo setor, como o alto custo da produção e as condições climáticas. Assim, para não perder espaço, os laticínios fizeram uma considerável redução de suas margens, em comprometimento de seu fluxo de caixa e de novos investimentos.

Um dos elementos que fortalece as práticas de precificação do varejo é o desequilíbrio na balança comercial do mercado lácteo. Segundo dados MDIC, desde 2008 o índice de exportação de produtos lácteos está abaixo das importações. O custo de produção em muitos países é inferior aos patamares brasileiros, fazendo com que produtos estrangeiros, principalmente o leite em pó e os queijos, cheguem ao Brasil com preços incompatíveis com a realidade nacional, sendo adotado como teto de negociação pelo varejo.

Para superar essa dificuldade, buscamos apoio em órgãos governamentais e participamos constantemente de debates para discutir os parâmetros das cotas de importação, tendo em vista a sustentabilidade do mercado interno. Alguns avanços já foram conquistados, mas ainda há um longo caminho a ser trilhado para o nivelamento das importações de queijos e soro de leite em pó, por exemplo.

Se sobre o mercado externo há necessidades de negociação para o estabelecimento de cotas de importação, internamente os Estados também batalham pela harmonização de tributos. Atualmente, as medidas protecionistas em negociações interestaduais excedem o bom senso, tornando, muitas vezes, impossível a venda para clientes em outras unidades da federação. Percebemos que é preciso adquirir uma maturidade dos ideais de cada fronteira e, só assim, construir canais de ligação. Nesse momento, a palavra de ordem é entendimento, com discussão de opiniões, para que a redução de alíquota nas operações interestaduais aconteça de forma harmônica e negociada, sem prever aumento de carga tributária.

Apesar dos desafios que temos pela frente, sou otimista e reconheço que já trilhamos um respeitável caminho até aqui, pautado pela ética e pelo compromisso com todos os empresários, representantes e profissionais do setor de laticínios. Todas as conquistas até aqui acumuladas só nos dão mais ânimo e fôlego para continuar em busca de novas melhorias, sempre com a sua parceria.

João Lúcio

Presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios de Minas Gerais